Mas afinal, o trabalho está para a aposentadoria?
Quando meu pai completou 40 anos ele costumava
dizer sorrindo que a vida começava ali. Dizia ainda que estava dobrando o cabo
da boa esperança. Talvez ele quisesse dizer que finalmente haveria esperança
para desfrutar dos anos de trabalho árduo atrás de um balcão de farmácia onde passou
grande parte da sua vida tirando o sustento para a família. Ou quem sabe via ali finalmente a
possibilidade de se aposentar e aproveitar a vida.
A geração baby boom ou pós-guerra,
fruto de uma história de escassez, opressão e sofrimento, chegava aos 14 anos e
já era considerado um adulto pronto para iniciar a vida profissional como um
aprendiz. Se o pai era marceneiro, o filho também seria. Pouco importava o
querer, o sonhar, ou qualquer outra manifestação verbal. Cabia ao jovem fazer o
que lhe era dito. Era algo implícito, não havia a necessidade de preparação ou
diálogo sobre algo tão óbvio. Iniciar a vida adulta aos 14 anos com a carteira
assinada e trabalhar durante 35 anos para depois enfim, gozar a vida com a
promessa de uma aposentadoria justa e folgada.
Vê-se hoje o Brasil passar
por uma grande reforma da previdência pública visto que a constatação é óbvia:
não haverá receita suficiente para pagar todos os aposentados em poucos anos. O ajuste não será somente em termos materiais,
mas há que se pensar que o trabalho não estará mais para a aposentadoria. Não
haverá mais a cenoura da aposentadoria e agora? Estamos atravessando o corredor
da mudança e sem a cenoura talvez não haja porque tanto sacrifício. Há que se
reformular e buscar novos recursos para compreender finalmente o sentido do
trabalho na vida. Qual será a cenoura que atrairá a atual geração?